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 Por Jorge Antonio de Queiroz e Silva
 Segunda-feira, 12/02/2018, 13h50
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Origens do Carnaval

Foto: Assessoria Parlamentar / tiaomedeiros.com.br
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: Pintura A luta entre o Carnaval e a Quaresma. Autoria do holandês Peter Bruegel em 1559. Fonte: HISTOBLOG

De vez em quando se ouve dizer: o carnaval é a maior invenção nacional. É uma afirmação equivocada. Afirmar que no Brasil o carnaval é uma das maiores manifestações populares do planeta é uma afirmação inconteste.

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Mary Del Priore, professora da USP-Universidade de São Paulo, afirma que a origem do Carnaval se perde na noite dos tempos, “tanto que as religiões históricas nascidas às margens do Mediterrâneo tiveram que inventar um lugar para tais festividades no seu calendário. O Cristianismo associou o Carnaval à Quaresma, que antecede a Páscoa; o Judaísmo, à festa de Purim, em homenagem à rainha Éster. Já o Islã sitiou as mascaradas no início móvel de seu ano lunar. As três festas seguem firmemente inscritas no tempo religioso, mas aparecem, em diferentes graus, como fragmentos ou parênteses pagãos”.

Embora existam antecedentes do Carnaval na distante Babilônia e Roma Antiga, é no calendário cristão que estão suas matrizes fundamentais. O Cristianismo integrou o tempo dos fiéis em torno do drama da Paixão. De acordo com Del Priore, por volta do ano 1000, a organização definitiva do tempo cristão assinalou a ruptura alimentar entre os períodos de abundância e de jejum. Para marcar o período em que era preciso deixar os prazeres da mesa e da carne, os clérigos forjaram a ideia de carnis privium ou carnis tolendas (abstenção de carne).

Na Idade Média, entre Natal e Carnaval aumentavam as quermesses. Durante o período da matança dos porcos para o preparo de embutidos (consumidos na semana gorda), liberava-se aos jovens tingir o rosto com cinzas e encapuzar-se. O uso de roupas de mulheres ou as próprias roupas ao avesso e o vestir-se com sacos também eram liberados. Eles entravam nas casas: comiam, bebiam, beijavam as moças que procuravam reconhecê-los.

“Na Quarta-feira de Cinzas, um manequim figurando o Carnaval fazia sua entrada no vilarejo seguido de um grande cortejo de mascarados. Ao fim do dia, era queimado num muro próximo à Igreja, juntamente com as máscaras, e acompanhado de lamentos que anunciavam a chegada da Quaresma”, enfatiza Mary Del Priore.

No Brasil, a festa chegou com o nome de “entrudo”, em 1723, trazida pelos imigrantes portugueses das ilhas de Açores e Madeira. O entrudo incluía o hábito de jogar água nos passantes ou brincar de pintar o rosto. Segundo Maria Clementina Pereira Cunha, professora da Unicamp, eram praticadas as brincadeiras “de mascarados, os Zé-pereiras (conjuntos com bumbos e instrumentos variados que saíam às ruas anarquicamente) barulhentos que congregavam espontaneamente foliões das ruas e outros folguedos que praticavam com entusiasmo. Tinham nisso a colaboração das autoridades que, anualmente, expediam circulares proibindo tais brincadeiras e gastavam muita energia prendendo e multando foliões teimosos”.

O Bacalhau do Batata
Imagem: O Bacalhau do Batata

O entrudo era praticado pelos escravizados e pela população livre, é o que conta José Ramos Tinhorão: “no Rio, no século XIX, as pessoas de bem não saíam nas ruas, pelo contrário, ficavam fazendo a gracinha de jogar água pela janela em quem passava. (...) Dentro de casa elas brincavam com uns limões de cera cheios de líquido perfumado. Quando jogava no outro, a película de cera rompia e a pessoa ficava cheirosa. Era uma coisa delicadinha, bem-comportada como requer a etiqueta. Já na rua, tinha gente que jogava urina, principalmente se o cara passava muito bem-vestido”.

Com o processo de industrialização, no final do século XIX, os imigrantes (recém-chegados) não desejavam participar do entrudo e nem tampouco se divertir com os escravizados. Brincar com o pessoal da elite também era inviável, pois o pessoal bacana se divertia em local fechado. Ocorreu uma mobilização para organizar o espaço público.

Tinhorão conta que até a década de 1910 havia uma desorganização, mas a baixa classe média começava então a organizar uma coisa com nome de rancho. Já vinha a polícia afastando o povo para a calçada para poder passar o rancho, organizadinho, bem-comportado. Criavam enredos e saíam aquelas moças como ‘as borboletas do Egito', com asas de arame e papel. A pretensão dessa baixa classe média era tanta que as pessoas saíam cantando trechos de árias de ópera. Os conjuntos que tocavam nos ranchos eram conhecidos como orquestra. A partir dos ranchos foi se apagando o verdadeiro carnaval no sentido da festa que o povo oferecia a si mesmo. A imitação da estrutura dos ranchos deu origem à Escola de Samba.

Mas o entrudo resiste. Em bairros de São Paulo crianças continuam jogando água nos carros; no Recife jogam farinha até hoje.

Considerações – Passei o Carnaval em locais convidativos. Em Olinda e Recife, a dança do frevo é uma das características do Estado Pernambucano. A dança do Galo da madrugada, que ocorre no sábado que antecede o Carnaval, encanta um milhão de pessoas todos os anos. No O Bacalhau do Batata, em plena quarta-feira de cinzas, a população nas ruas de Olinda segue os bonecos gigantes e a orquestra de frevo. Detalhe: O garçom Izaías Pereira da Silva, o Batata, foi quem criou O Bacalhau do Batata.

Em Salvador, a população segue os caminhões (trios elétricos), que são verdadeiros palcos, onde bandas tocam axé-music. Os grupos afros saem da Cidade Baixa e do Pelourinho tocando tambores até a Praça Castro Alves. Nesta praça é realizada uma confraternização.

Na cidade maravilhosa, Rio de Janeiro, as Escolas de Samba se apresentam no Sambódromo. Além dos enredos, são observados na passarela do samba os carros alegóricos, quatro mil ou mais componentes usam fantasias relacionadas com o tema do ano. O público extasiado assiste ao raro espetáculo.

Bibliografia consultada: Revista Nossa História, ano 2, n° 16, fevereiro 2005.

Revista História Viva, ano II, n° 16, fevereiro 2005.

Dicas de leitura: Queiroz, M. I. P. de. Carnaval brasileiro, o vivido e o mito. São Paulo: Brasiliense, 1992.

Da Matta, R. Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

Jorge Antonio de Queiroz e Silva é historiador, palestrante, professor.


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